O Mundo e os seus financiamentos.
22 22UTC setembro 22UTC 2008
O começo e o fim do processo são sempre os mesmos: inicia-se como o contágio de uma doença transmissível que imuniza os sobreviventes, e termina quando já não há mais indivíduos com a imunização natural para transmiti-la.
A crise dos "subprimes" é um fenômeno largamente conhecido, que se repete irregularmente. Quando os mercados desenvolvem um tipo de movimento que se alimenta apenas das próprias "expectativas", estas tendem a se realizar, a despeito da crença na "racionalidade" dos agentes.
No caso da economia, tudo começa com a descoberta de uma oportunidade de lucro derivada de uma "convicção" (às vezes até apoiada em condições objetivas) de que o preço de um bem ou de um papel representando uma atividade vai aumentar.
À medida que ela se generaliza, a demanda cresce e, como esperado, o preço aumenta. Isso atrai uma quantidade crescente de novos compradores, o que acelera o aumento dos preços. Reforça-se, assim, a crença nos bons lucros, cuja visibilidade atrai ainda mais compradores e assim por diante…
A duração e a amplitude do movimento dependem da capacidade e da disposição do sistema financeiro de apoiar e dele beneficiar-se por caminhos diretos e indiretos. Sem a conivência e a participação ativa do sistema financeiro, e sem as enormes "alavancagens" à disposição dos agentes, ele teria curta duração.
A expectativa de altos ganhos para os agentes e de polpudos lucros para os intermediários financeiros reforçam-se mutuamente. Todos vão à felicidade geral. Enriquecem uns e outros, apenas porque têm a expectativa de que vão enriquecer…
Quando o processo continua por algum tempo, a experiência mostra que a sanha de lucro oblitera o comportamento dos agentes: os compradores não vêem nenhuma razão para prevenirem-se contra uma possível queda dos preços e assistirem à humilhação de ver os seus vizinhos enriquecerem enquanto eles "chupam o dedo da cautela".
Os financiadores (atrás dos "bônus anuais") esquecem a avaliação dos "riscos". Por que pensar neles, se o movimento vai prosseguir indefinidamente e todos os créditos - que estão produzindo os altos lucros - serão afinal, performados?
O problema dos "subprimes" é apenas mais uma repetição da "irracionalidade imanente" dos mercados não regulados que lotam o cemitério da história econômica desde o século XVII, quando se registrou a famosa bolha denominada "febre das tulipas", ou do século XX com a "nova economia".
A diferença é que agora ela se manifestou no mercado imobiliário de casa própria nos EUA que se estabilizou em torno de 2004 e que hoje anda às voltas de 70%.
Uma boa parte desse movimento foi estimulado pelo próprio aumento da demanda das casas que, através do crescimento dos preços, ampliou a "riqueza virtual" e aumentou o consumo real dos compradores.
Os baixos juros reais e a ampliação do crédito pela desconsideração dos "riscos" envolvidos nas chamadas hipotecas "subprime" aceleraram o processo. "Subprime" é a hipoteca que garante um empréstimo feito a um comprador duvidoso e/ou, sem os cuidados de avaliação adequada dos seus rendimentos.
Há suspeita de que gigantes financeiros criaram fundos ("conduits", que somam mais de US$ 500 bilhões ) que tomaram posição em papéis lastreados em "subprimes" (Collateralized Debt Obligations e Mortgage Backed Securities), sem registrar seus "riscos".
Com essa "fantasia" contábil, transformam, magicamente, papéis duvidosos em AAA, sem registrá-los nos seus balanços. Eles e provavelmente as agências classificadoras de riscos vão ter de enfrentar agora a lei Sarbanes-Oxley.
A explicação fundamental para esse processo é o próprio aumento dos preços da casa própria estimulado pela expansão da demanda que o próprio sistema financeiro criava com novos e mais ágeis instrumentos de crédito.
Tudo caminhava maravilhosamente, até que a delinqüência no pagamento das hipotecas "subprime" começou a aumentar cobrando sua parte no descuido com a melhor avaliação dos "riscos".
A partir de rumores sobre dificuldades financeiras de alguns fundos nos EUA, o banco alemão IKB não honrou o financiamento do seu fundo e o seguro estatal KFW marchou com ? 8 bilhões.
O mesmo aconteceu com o BNP-Paribas, que simplesmente suspendeu os resgates de três dos seus fundos. A reação das bolsas mundiais foi imediata e dramática. Mas os bancos centrais de todo o mundo haviam aprendido a lição de Greenspan de 1998, quando enfrentou a crise do famoso Long Term Capital Management (LTCM): encheram o mercado de liquidez, acalmando os bancos e as bolsas.
Que ninguém se iluda, os "subprimes" são apenas um dos problemas do mundo imobiliário americano, a ponta do iceberg financeiro mundial. Os bancos vão salvar-se, mas seus administradores não. Os "bônus" distribuídos e embolsados pelos fundos estão "seguros" e não serão devolvidos.
Quem vai perder são os aplicadores nos fundos (mesmo os que não sabiam) dos "subprimes"! Daqui para frente, os "riscos" serão (até que apareça uma nova oportunidade!) melhor avaliados e o "crédito" mais cuidadoso.
O problema é que é desse crédito, que parece estar se evaporando, que depende o crescimento mundial que nos comanda.

