GESTÃO DO CONHECIMENTO

Um futuro diferente do passado.

O Rei Salomão e o caso Isabella.

12 12UTC maio 12UTC 2008

Há não sei quanto tempo que os jornais e a televisão nos vão dando conta da história da criança a que os observadores mais imparciais acabam cedendo ao regime de verdades sentimentais.

Como tudo o que neste país passa pelos tribunais, vai se tornar uma saga infindável e agitada, com sensações a um ritmo regular desde a morte, passando pela indignação da população, pelo célebre episódio da “prisão do casal” e muitos outros que virão.

Quase toda a população fala do caso, geralmente para tomar partido. E a história do “casal monstruoso”, tem mais sucesso do que a outra história possível: a da mãe “biológico” e esposa traída a tentar recuperar o seu “amor próprio” ferido em batalha anterior à morte da filha. Sempre que os tribunais contrariarem essa preferência, haverá indignação e se concluirá mais uma vez que “não há justiça no Brasil”.

Neste momento, em que a poeira ainda não baixou, fiquemos por algumas notas sobre o que a discussão acerca desta história diz de nós - com o devido respeito por todas as pessoas diretamente afetadas.

A situação é das mais antigas do nosso imaginário. Duas pessoas reivindicam a paternidade de uma criança. Como saber quem a merece? Como ser justo? Muito antes dos testes de DNA, pareceres psiquiátricos e sondagens de opinião, o Rei Salomão recorreu a um truque que, durante alguns séculos, ilustrou a sua sabedoria.

Há muito tempo, porém que a “justiça” não é para nós, sinônimo de sabedoria à qual devêssemos nos submeter. Não acreditamos na sabedoria, porque o nosso sentido de igualdade que propõe a “incorporação das massas ao processo político” nos impede de admitir que o próximo possa ser mais “sábio” do que nós.

Acreditamos, em contrapartida, na determinação dos fatos e na aplicação de regras objetivas. Preferimos ser casos previstos pela lei ou estudados pela ciência. E quando a lei ou a ciência não chegam, preferimos a opinião da maioria, que não é a de ninguém em particular.

Não temos sábios. Temos juízes, “especialistas” e opinadores. Reconhecemos-lhe autoridade, não enquanto indivíduos, mas como membros de corporações: os juízes nos tribunais, os especialistas devidamente credenciados ou integrados em instituições profissionais, e os opinadores competentemente sondados e mantidos por empresas “fiáveis”, com ficha técnica.

Eis as autoridades que tomaram o lugar de Salomão. Armados com o que diz a lei, explica a ciência e deseja a opinião da maioria, sem precisar da sabedoria, acreditamos ter a verdade à mão.

Acontece que não temos.

A lei tem várias interpretações ou versões. Pior: a lei pode ser mudada pelos legisladores. Nada, portanto, nos obriga a conformar com ela, mesmo quando temos de admitir que o seu sentido seja o que não nos convém.

Quanto à ciência, todos sabem que consiste em controvérsia: o parecer de um especialista, com bibliografia, cura-se sempre com o parecer de outro especialista, com ainda mais bibliografia.

E à opinião há muito que foi diagnosticada a característica de variar conforme a última notícia ou rumor.

Nas nossas discussões invocamos a lei, a ciência e a opinião com abundância.
Mas perante os limites de cada uma dessas autoridades, o que decisivamente colocamos no lugar da sabedoria?

A nossa disponibilidade e capacidade para nos emocionarmos.

Gostamos de nos exaltar, de tomar partido, porque quando nos exaltamos e tomamos partidos, o mundo parece finalmente simples e óbvio, como raramente é do ponto de vista da lei, da ciência, ou da opinião.

Este regime de uma verdade sentimental, exercido através da expressão veemente, nos leva a reconhecer como monstruoso tudo o que contraria as nossas tendências: a lei, nesses casos, surge-nos como um capricho dos juízes, a ciência como um disparate mercenário, e a opinião como o produto adulterado, uma “campanha orquestrada”.

Com a nossa indignação, conseguimos isto: estar de mal com o mundo, para estarmos de bem conosco, portanto, sem compromisso.

E a este respeito, é curiosa perceber a maneira como a maioria imagina esta criança que ninguém vê, mas que continua em cada um, usada e desprezada a cada dia.

Ao longo deste caso, ela servirá de “tela” ou plano de fundo para projetar certas idéias do que é ser humano. E essas idéias nos dizem que podemos ser tudo, isto é, tomar qualquer “identidade”, desde que devidamente “educados”.

Sem natureza ou caráter próprios, somos apenas coisas extremamente frágeis. Por isso, é imprescindível empenhar nossas energias a serviço da educação.

Curiosamente recusamos ser tratados como “propriedade” de outros, mas não nos importamos de passar por “doentes”, a precisar de proteção contra todos os conflitos e dificuldades.

O nosso interesse e o nosso direito esgotam-se no nosso “bem estar”. É isto o que mais nos importa.

Salomão propôs cortar uma criança ao meio para descobrir a verdade. Nós preferimos cortar a verdade ao meio para estarmos de bem conosco.

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