CARREIRA E O PROPÓSITO DE VIDA
28 28UTC abril 28UTC 2008
Pessoas que atuam em empresas – qualquer que seja seu nível hierárquico –posicionam o trabalho que têm dentro do contexto maior de suas vidas.
Algumas refletem sobre isso de forma profunda e consciente quase o tempo todo. Outras pensam sobre essa questão somente quando fatos como um aborrecimento, uma promoção que não veio, um conflito familiar quebram a rotina de seu dia-a dia.
Em ambas as situações, levantam-se questões cujo foco não está na empresa, sua filosofia ou cultura, mas sim na própria pessoa: seus objetivos, anseios, valores e motivações:
1. Gosto realmente do que faço?
2. Vou querer fazer esse tipo de trabalho a vida toda?
3. Até que ponto estou abrindo mão de valores e anseios pessoais (e até “engolindo sapos”, atrofiando meu talento) em troca dos bens materiais e status que esse trabalho propicia?
4. Qual minha real vocação?
5. Em que sentido esse trabalho e essa empresa ajustam-se ao meu plano global de vida em termos de desenvolvimento pessoal e realização como ser humano num sentido mais amplo?
6. Que alternativas não ortodoxas/criativas, em termos de trabalho, poderiam melhor viabilizar meu propósito de vida? Na empresa? Fora dela?
7. Como estão minhas perspectivas de longo prazo nessa empresa em relação às alternativas acima?
Em geral as empresas não empatizam com seus colaboradores a ponto de levar em conta tais questões. O prisma tende a ser unilateral, focando apenas os interesses da empresa:
como melhor usar os talentos dessa pessoa?;
em que tipo de trabalho ela será mais produtiva em relação aos objetivos da empresa?; e assim por diante.
Quando muito, há algum diálogo sobre preferências quanto a áreas funcionais, especialidades etc.
Raras são as empresas que vão fundo nas questões básicas relacionadas ao propósito de vida das pessoas.
Parece haver um tabu a respeito. Embora as questões estejam dentro de cada pessoa, evita-se falar abertamente sobre elas.
São múltiplas as causas deste tipo de distorção:
• Não existe um foco apropriado para discutir essas questões de forma mais profunda.
• Os programas de recursos humanos (planejamento de pessoal, administração de carreiras, programas de desenvolvimento etc.) tendem a permanecer nos limites do “apropriado” (foco nos interesses maiores da empresa), conforme a visão do principal executivo da área.
• Os executivos de alta administração, não obstante o fato de terem questionamentos profundos a nível pessoal (suas próprias carreiras, seus pontos de stress, preocupações com o futuro), tendem em geral a permanecer nos “limites do profissional” ao contrapor objetivos institucionais aos pessoais.
• A própria cultura da empresa, que tende a definir o que é “certo” e “apropriado” (até onde discutir vocação, objetivos de vida etc.), acaba sendo limitada ao tentar conciliar os objetivos da organização com os objetivos pessoais de seus colaboradores.
• A cultura do “mundo dos negócios” também tende a definir de forma estreita os limites do “apropriado” ao se tratar dos objetivos de vida das pessoas.
Essa tendência a que se ignore o propósito de vida das pessoas faz com que ocorram perdas de grande impacto para as empresas (potencializadas por não se vincular o problema – sub-avaliado por ser de impacto a médio/longo prazo – às suas causas reais): perda de talentos, falta de motivação e de identificação com o que se faz na empresa, não florescimento da organização, tendência à estagnação e ao retrocesso.
Nestes tempos em que a força de inovação cresce como fator-chave de competitividade é preciso quebrar os tabus existentes e assegurar um diálogo mais aberto e autêntico entre a organização (representada por sua alta administração) e seus colaboradores.
Nessa relação mais autêntica tanto a organização como os seus colaboradores desenvolvem-se e conseguem realizar seus objetivos por meio de relações sadias, nas quais negociação, transigência, cooperação e apoio mútuo constituem a base de sua força.
Para atingir esse estágio, a empresa e seus colaboradores devem agir pro ativamente na busca de uma nova relação, uma mudança drástica, mas de excepcional importância para todos.

